Quem diria que a internet que a gente usa todo dia, seja pra ver um vídeo, fazer uma compra online ou até mandar um e-mail pra outro continente, depende de uma rede gigantesca de cabos lá no fundo do oceano? Pois é, essas estruturas, feitas de fibra óptica, são a verdadeira espinha dorsal da conectividade mundial, carregando boa parte do nosso tráfego de dados.
Antigamente, elas eram quase exclusividade de operadoras de telecomunicações e de consórcios estatais. Mas o cenário mudou demais.
De uns anos pra cá, as grandes empresas de tecnologia, as chamadas big techs, tipo Google, Meta, Microsoft e Amazon, resolveram botar a mão na massa e investir pesado nessa infraestrutura vital.
O que são esses cabos e por que eles importam tanto?
Na prática, os cabos submarinos funcionam como rodovias gigantes de dados, ligando continentes e permitindo que tudo o que a gente faz online funcione direitinho.
Pensa em redes sociais, chamadas internacionais, operações financeiras e, mais recentemente, até os sistemas de inteligência artificial em nuvem. A coisa é séria: estatísticas da Global Digital Inclusion mostram que esses cabos são responsáveis por algo tipo 95% do tráfego global da internet.
Tem satélite, claro, mas eles não chegam nem perto da velocidade e da capacidade que a fibra óptica debaixo d’água oferece.
Imagine só, essa teia subaquática tem centenas de cabos, somando quase 1,4 milhão de quilômetros.
Dá pra ter uma ideia da dimensão, né?
Tem cabo mais curtinho, tipo o CeltixConnect, que só liga a Irlanda ao Reino Unido em 131 quilômetros. Mas tem uns que parecem infinitos, como o Asia America Gateway, que passa dos 20 mil quilômetros.
E olha, o número de cabos no planeta só aumenta, já que a demanda por dados é uma coisa absurda, com streaming de vídeo e serviços de nuvem crescendo a cada dia.
Lá no comecinho de 2024, a TeleGeography, que é uma consultoria do setor, contava 574 cabos submarinos operando ou já em fase de planejamento.
O ponto é que a importância desses cabos fica ainda mais clara quando dá algum problema.
Um corte num cabo submarino, por exemplo, não é só um detalhezinho técnico.
Pra gente, usuário final, a gente nem percebe o corte em si.
O que a gente nota é que o aplicativo ficou lento, o vídeo travou ou a página nem abriu.
Daí, as operadoras precisam redirecionar o tráfego por outras rotas, e isso acaba gerando congestionamento na rede.
Ou seja, o impacto de uma falha num cabo desses é muito, mas muito maior do que se um cabo terrestre for cortado.
A Nova Onda de Investimentos: Big Techs no Comando da Conectividade
Se antes quem mandava no setor de cabos submarinos eram as operadoras de telefonia e alguns governos, essa história mudou.
A partir dos anos 2010, com o Google investindo no consórcio do cabo Unity lá em 2010, o jogo virou.
Desde então, a Meta, a Microsoft e, por último, a Amazon também entraram na jogada, comprando capacidade ou até bancando a construção de sistemas inteiros de cabos.
Por que as gigantes da tecnologia estão com a mão na massa?
A real é que a fome por dados dessas empresas cresceu demais, especialmente com a explosão da inteligência artificial.
Sistemas de IA exigem um poder computacional gigantesco e uma capacidade de transferência de dados que beira o absurdo.
Pra não depender de terceiros e ter controle total, essas big techs estão construindo as próprias “rodovias”.
Assim, elas conseguem:
- Aumentar a capacidade de dados: É o óbvio, né? Mais cabos, mais tráfego.
- Garantir resiliência contra falhas: Se um cabo falha, elas têm outras opções pra manter o serviço rodando.
- Reduzir custos operacionais a longo prazo: Com o tempo, ter a própria infraestrutura sai mais barato do que alugar capacidade de outras empresas.
- Evitar gargalos: Chega de depender de intermediários ou de leis de outros países que possam atrapalhar o fluxo de dados.
Os megaprojetos que redefinem o mapa
A Meta, por exemplo, anunciou o ambicioso Projeto Waterworth.
Ele promete ser o cabo submarino mais longo do mundo, com uns 50 mil quilômetros de extensão, ligando cinco continentes.
A ideia é atender regiões estratégicas, como Brasil, Estados Unidos, Índia e África do Sul.
O Google, por outro lado, já investiu num sistema tipo malha de mais de 30 cabos, o Sol, que interliga Estados Unidos, Bermudas, Açores e Espanha.
A meta ali é garantir que os serviços do Google Cloud e de inteligência artificial rodem liso em vários mercados globais.
Tem também o Equiano, outro cabo submarino do Google, que já está ligando a Europa Ocidental à África do Sul desde 2022.
Nigel Bayliff, um dos diretores do Google que entende muito de redes submarinas, reforça que tipo 99% da transmissão internacional de dados passa por essas estruturas.
Ou seja, sem os cabos, a estabilidade digital global simplesmente não existiria.
Alex Aime, que é chefe de infraestrutura de rede da Meta, complementa que a chave na era da IA é ter capacidade, resiliência e alcance global, e os cabos são fundamentais pra isso.
O Mercado Bilionário dos Cabos Submarinos
A consultoria Mordor Intelligence estima que o mercado de cabos submarinos de fibra óptica está avaliado em cerca de US$ 5,31 bilhões em 2024.
E a projeção é que chegue nuns US$ 8,95 bilhões lá pra 2029, com um crescimento anual composto (CAGR) de 12,10%.
Um baita salto, não é?
Daí que tem muita operadora e agência governamental de olho nesse mercado.
Dados que comprovam a expansão
Essa expansão tem motivos claros, como o investimento que não para de crescer em infraestrutura de internet de alta velocidade.
Sem contar que a gente gera e transfere volumes gigantes de dados todo santo dia.
Outro ponto que impulsiona isso tudo é o aumento da penetração de smartphones e da banda larga móvel.
Muita gente nova entrando na internet, em mercados emergentes, demanda mais e mais capacidade.
A GSMA, por exemplo, prevê que as assinaturas de smartphones no mundo todo pulem de 76% em 2022 pra 92% em 2030.
Mais gente com celular na mão, mais consumo de internet, mais dados gerados, e, por isso mesmo, mais necessidade de data centers e infraestrutura que aguente tanta conectividade.
Olha só, a região Trans-Pacífico, que liga a Ásia ao ocidente, é uma das que mais puxam esse crescimento.
Ela concentra uma fatia enorme do tráfego global da internet.
Um exemplo claro é o sistema Pacific Light Cable Network (PLCN), que conecta Estados Unidos, Taiwan e Filipinas.
Além dele, a NTT Ltd Japan Corporation, junto com outras empresas, lançou a Seren Juno Network Co. pra construir e operar o JUNO, que promete ser o maior sistema de cabos submarinos Trans-Pacífico entre Japão e EUA, com mais de 10.000 km, pra ficar pronto até o fim de 2024.
As Sombras do Oceano: Desafios e Riscos
Apesar de toda essa tecnologia e investimento, o caminho pra ter uma internet global robusta e segura não é fácil.
Tem desafios grandes, uns bem complexos.
Vulnerabilidades e custos escondidos
Pra começar, a instalação de um cabo submarino pode levar anos, tipo uns 4 anos, desde o planejamento da rota até ele estar funcionando.
E o custo? É bem alto.
A implantação de um cabo pode custar uns US$ 10 milhões, mas a manutenção geral da rede global chega fácil na casa do bilhão de dólares.
Mesmo com várias camadas de proteção, esses cabos ainda precisam de manutenção periódica, e isso não é barato.
E os riscos?
As maiores ameaças vêm de causas naturais, como terremotos e deslizamentos submarinos.
Mas tem também as ações humanas: âncoras de navios desgovernadas e atividades de pesca acidentalmente cortam cabos.
Ah, e os tubarões? Relaxa, eles não conseguem romper um cabo com uma mordida, isso é mais lenda urbana.
Além do mais, por mais que os cabos sejam a bola da vez, a comunicação via satélite também tá crescendo e pode ser uma alternativa, principalmente em trajetos mais longos e com menos densidade de tráfego.
Implantar um link via satélite, por exemplo, é bem mais rápido do que colocar um cabo submarino.
O Jogo Geopolítico e a Soberania Digital
Acontece que os cabos submarinos viraram também um ponto crucial nas relações internacionais e na segurança nacional.
A tensão entre países, especialmente entre Estados Unidos e China, elevou o nível de alerta sobre possíveis interferências ou, pior, sabotagens.
Tem gente nos EUA, por exemplo, que já alertou empresas como Google e Meta que cabos no Pacífico podem estar vulneráveis à espionagem de navios de reparo chineses.
Há relatos de que uma empresa chinesa controlada pelo estado, a S.B. Submarine Systems, tava meio que escondendo a localização de seus navios de rastreadores via rádio e satélite.
Por isso mesmo, o comitê interinstitucional Team Telecom, dos EUA, anda trabalhando pra impedir que qualquer cabo submarino ligue diretamente o território americano à China ou Hong Kong, com medo de espionagem.
E o papo do “colonialismo digital” ganha força aqui.
Pesquisadoras como Esther Mwema e Abeba Birhane, por exemplo, argumentam que a instalação desses cabos em países africanos, como o Google Equiano e o Meta 2Africa, repete uma lógica colonial.
As linhas de cabos de hoje, elas dizem, seguem rotas parecidas com as linhas telegráficas de 1901, beneficiando mais as potências ocidentais.
Muitas vezes, as empresas operam em condições nada transparentes, e os países africanos acabam pagando pra usar cabos instalados nas suas próprias águas, criando um modelo de dívida e dependência.
Pra elas, a economia digital, que tira e manipula dados, permite que as grandes tecnologias explorem a infraestrutura e os dados africanos sem muito consentimento ou, às vezes, até sem a consciência das pessoas.
Basicamente, dados sobre população e território eram usados no auge do colonialismo pra controlar as populações locais.
Agora, essa coleta de dados sobre a gente e nossos territórios, que serve pra monitorar e gerenciar, tá no centro da colonialidade digital.
Assim, elas defendem que é superimportante rever as regras internacionais de como os cabos são instalados – tipo as do International Cable Protection Committee (ICPC), que são bem antigas – e regulamentar isso em cada país, pra garantir mais governança e soberania.
Como o Brasil entra nessa história?
O Brasil é peça-chave no mapa dos cabos submarinos.
Com 15 cabos ativos hoje, o país tem pontos estratégicos.
Fortaleza (CE), por exemplo, é um dos maiores hubs do mundo, perdendo só pro um ponto na Europa, por causa da sua localização geográfica privilegiada.
Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ) e Santos (SP) também são hubs importantes na costa brasileira.
Dada a importância desses cabos, a Marinha do Brasil (MB) tem um papel fundamental na proteção dessa infraestrutura.
Eles fizeram um exercício inédito em maio, focado na defesa dos cabos submarinos, incluindo ações contraterrorismo.
Afinal, a paralisação desses sistemas pode trazer prejuízos econômicos e de segurança enormes pro país.
Os cabos que chegam no Brasil têm sua história.
A primeira linha telegráfica por aqui, lá em 1857, ligava o Rio de Janeiro a Teresópolis.
O primeiro cabo de fibra óptica transoceânico, que conectou os EUA ao Reino Unido e França, só veio em 1988.
Os cabos têm uma vida útil de mais ou menos 25 anos.
Quando algum deles se danifica, a Marinha, em parceria com outras instituições, faz a fiscalização e o reparo.
É um trabalho contínuo, pra garantir que a Amazônia Azul, nosso território marítimo, esteja segura e conectada.
O cenário é claro: os investimentos em cabos submarinos continuam num ritmo acelerado, e não há sinais de que isso vá desacelerar.
As big techs devem seguir na linha de frente dessa transformação, brigando não só por mercado, mas pelo controle estratégico de toda a conectividade global.
Perguntas e Respostas Rápidas
O que são cabos submarinos?
São cabos de fibra óptica instalados no fundo dos oceanos, funcionando como grandes “rodovias de dados” que conectam continentes e permitem a transmissão da maior parte do tráfego de internet global.
Quanto do tráfego da internet passa por cabos submarinos?
Cerca de 95% a 99% de todo o tráfego intercontinental de internet passa por esses cabos.
Por que empresas como Google e Meta investem neles?
Principalmente pra ter controle sobre a própria infraestrutura digital.
Com o crescimento explosivo da inteligência artificial e a demanda por alta capacidade de dados, essas empresas buscam aumentar a capacidade, a resiliência contra falhas, reduzir custos a longo prazo e evitar gargalos impostos por terceiros.
Quais os principais riscos para os cabos submarinos?
Os riscos incluem causas naturais (como terremotos submarinos), danos acidentais por atividades humanas (como âncoras de navios ou redes de pesca) e, mais recentemente, preocupações com sabotagem ou espionagem por questões geopolíticas.
Tubarões, ao contrário do que se pensa, não representam uma ameaça significativa.
Qual o papel da Marinha do Brasil na proteção desses cabos?
A Marinha do Brasil atua na proteção dessa infraestrutura crítica, realizando exercícios e fiscalizações pra garantir a segurança e a funcionalidade dos cabos em águas brasileiras, prevenindo interrupções que podem gerar grandes prejuízos econômicos e de segurança.
